Há um conto Taoísta sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.
"Que má sorte!" eles disseram solidariamente.
"Talvez," o fazendeiro calmamente replicou. Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens.
"Que maravilhoso!" os vizinhos exclamaram.
"Talvez," replicou o velho homem. No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.
"Que pena," disseram.
"Talvez," respondeu o fazendeiro. No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram.
Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.
O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:
"Talvez."
Pesquisaí
terça-feira, maio 4
quarta-feira, março 24
O Pangaré e o Garanhão
Grigory Perelman
O cidadão da foto, um dos maiores gênios vivos da matemática, descobriu a solução lógica para um problema esotericamente badalado e resolvido, matematicamente dificílimo, e cujo labirinto já tinha matado vários: a Conjectura de Poincaré.
Dizia Poincaré que qualquer espaço sem furos era equivalente a uma esfera esticada, e não trabalhou na solução, provavelmente tocado pelo insight gnóstico de que tudo o que vemos é uma expressão do espírito, representado por um círculo.
Enfim, Poincaré deixou a palavra e deu-se a batalha pela prova. E eis que aquele que a resolveu, mesmo com 1 milhão em uma pasta levada à sua porta por uma instituição filantrópica, disse:
- Tenho tudo o que quero.
Explico: quando Perelman ganhou a medalha Fields em 2006, achou que a matemática estava fazendo política ao dar a medalha para outros 2 cidadãos, e não só não foi à solenidade como abandonou a matemática como profissão remunerada.
Agora, em 2010, 8 anos depois de ter apresentado a solução do que Poincaré conjecturou, vieram dizer-lhe que ninguém foi capaz de refutar sua prova. Aproveitaram e trouxeram-lhe $1.000.000,00 oferecidos pelo instituto Clay de Matemática a cada um de 7 desafios lógicos escolhidos e intransponíveis há um tempo.
Entre a prostituição e a solidão, Perelman fez sua escolha.
Essa é a diferença entre o pangaré e o garanhão.
sábado, março 20
Kaossilator
The moment we ran our fingers over the touchpad of the Kaossilator and heard the otherworldly sounds of the future we were hooked. This pocket sized music synthesizer is like nothing we've seen before. Rather than using keys or buttons to play musical notes, the Kaossilator features a revolutionary touchpad design. Move your finger from left to right to change the pitch of the note, and up and down to change the sound. But musical sounds are only the beginning, the Kaossilator can also be used like a drum kit with dozens of built in beats and drum sounds. Plus you get some amazing sound effects from laser blasts to Pac Man. You can put everything to good use with the built-in loop recording feature which lets you layer virtually unlimited tracks to create complex songs combining lead instruments, drum beats and sound effects together.
You would think that all this power at your fingertips might be difficult to wield... but actually we were pretty amazed at how easy it is to make some great sounding music. You'll almost feel guilty belting out some danceable beats with virtually no effort. The Kasossilator is also a great tool for DJs and allows you to tap your finger to the beat of any existing music, this sets the beats per minute and then you can play along with all your beat loops in sync. You can change the key you play in, or choose from different scales... and you get tons of different arpeggiator patterns. But we digress... watch the video and all will be revealed young grasshopper.
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segunda-feira, março 15
Imortal
Engraçado pensar nisso agora com esse vídeo, mas já dizia Asimov que a descoberta na ciência não vem do Eureka, mas do Engraçado. De fato acho cabal o fato da ciência feita com espírito substantivo gerar graça.
Mas e a imortalidade, o que pensaria da vida em si, elocubro. Movimento, dança, saudade, organismos mais infantis, espontâneos, francos, sinceros, intrépidos, fraquezas não levadas pela disciplina, amores vãos, vens, que foram, platão, heráclito, o cão, de manter viva a atmosfera de um incenso, ascensão. Saudade é uma das faces do brilho da jóia. Talvez seja a saudade a idade da saúde.
Mas e a imortalidade, o que pensaria da vida em si, elocubro. Movimento, dança, saudade, organismos mais infantis, espontâneos, francos, sinceros, intrépidos, fraquezas não levadas pela disciplina, amores vãos, vens, que foram, platão, heráclito, o cão, de manter viva a atmosfera de um incenso, ascensão. Saudade é uma das faces do brilho da jóia. Talvez seja a saudade a idade da saúde.
sábado, março 13
Banksy em Bristol
Em inglês o sufixo "-cy" transforma a palavra em um estado ou qualidade de ser algo, relacionado ao segundo significado de uma posição ou ranking. Bom, o post e vídeo remetem ao grafiteiro da Inglaterra que, com a licença do artista iconoclasta, batizou-se iconicamente de Bank+cy(sy), alguém que detém o poder ideológico de Banco, daquele que idealmente guarda e rende os valores dos homens. Banksy subverte o poder bélico e monta sua arte escrutinizando os becos das cidades, a sublime forma da sujeira, a mosaica rebelião contra a percepção totalitária da arquitetura midiática, mostrando o poder e santidade da rua. E o faz muito bem.
quinta-feira, março 4
Experimento Socialista em ato único
Um professor de economia na universidade Texas Tech disse que ele nunca reprovou um só aluno antes, mas tinha, uma vez, reprovado uma classe inteira.
Esta classe em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e 'justo. '
O professor então disse, "Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas." Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam 'justas. ' Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém seria reprovado. Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um "A"...
Depois que a média das primeiras provas foram tiradas, todos receberam "B". Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.
Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos - eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a segunda média das
provas foi "D". Ninguém gostou.
Depois da terceira prova, a média geral foi um "F". As notas não voltaram a patamares mais altos mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por 'justiça' dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram o ano... Para sua total surpresa.
O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes.
Preguiça e mágoas foi seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado. "Quando a recompensa é grande", ele disse, "o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável."
"É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade. Cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. O governo não pode dar para alguém aquilo que não tira de outro alguém. Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e qua ndo esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.
É impossível multiplicar riqueza dividindo-a."
Adrian Rogers, em 1931"
Esta classe em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e 'justo. '
O professor então disse, "Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas." Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam 'justas. ' Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém seria reprovado. Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um "A"...
Depois que a média das primeiras provas foram tiradas, todos receberam "B". Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.
Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos - eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a segunda média das
provas foi "D". Ninguém gostou.
Depois da terceira prova, a média geral foi um "F". As notas não voltaram a patamares mais altos mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por 'justiça' dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram o ano... Para sua total surpresa.
O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes.
Preguiça e mágoas foi seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado. "Quando a recompensa é grande", ele disse, "o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável."
"É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade. Cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber. O governo não pode dar para alguém aquilo que não tira de outro alguém. Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e qua ndo esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.
É impossível multiplicar riqueza dividindo-a."
Adrian Rogers, em 1931"
quarta-feira, março 3
Adeus
Um homem entra por acaso num café de livraria e pede uma água com gás. Uma mulher percorre lombadas de uma prateleira com os dedos. O homem olha com atenção aquela mulher maravilhosamente desconhecida. Estamos no momento em que faltam poucos segundos para que ele se levante e vá falar com ela.
Ou ainda: um homem lê o jornal na praia. Uma mulher, três barracas depois, precisa do caderno de classificados. Esse homem maravilhosamente desconhecido lhe atrai. Estamos no momento em que faltam poucos segundos para que ela se levante e vá falar com ele.
Esse momento se repete milhões de vezes, todos os dias, a qualquer hora, em qualquer parte do mundo. Normalmente é fruto do acaso (“uma teia de coincidências”), mas pode também fazer parte de uma orquestração que envolva terceiros. As variações sobre ele são infinitas. Pode acontecer na saída de um teatro, numa madrugada de aeroporto, num velório, num bloco de carnaval, pela internet etc.
Pouco importa o que está no fundo da cena. Importante é o que há em comum entre todos esses encontros. Dizer olá ao desconhecido sempre será começar a despedir-se do futuro conhecido. A história que unirá os que tiverem sorte é uma cerimônia de adeus. Uma mais ou menos longa cerimônia de adeus.
***
Peço licença e me aproprio de algumas rolandbarthianas questões – inúteis, logo veremos. Serei capaz de olhar o rosto de quantas mulheres ao longo da vida? Centenas de milhares? Milhões? Entre as donas desses rostos, desejarei algumas centenas. Mas estarei sempre amando só uma. E por que não outra? O que me fará escolher exatamente essa e não aquela? O que me fará ter medo de perdê-la?
Formulação melhor para essa pergunta: o que me fará querer despedir-me dessa e não daquela?
A mecha de cabelo que cai sobre a testa, a cintura fina, o formato das panturrilhas, o jeito que ri? O seu suor? Ou uma palavra? Um gosto em comum? A timidez do ridículo? O livro que escolhe para ler? O senso de humor? O toque dos dedos? O tom da voz? Jamais saberemos. Novamente, pouco importa o que está no fundo da cena.
Depois de eleito o objeto de desejo, alguém lúcido diria que o amor se construirá sobre camadas de engano e falsas ofertas. Até que cumpra sua vocação irresistível (a despedida) e ressurja num novo encontro entre dois novos anônimos, depois daquele instante vertical que existe entre olhar, levantar-se e dizer “olá”.
O risco de saber disso tudo é, num ato falho, saudar alguém na praia ou na livraria dizendo “adeus”.
***
- Adeus.
- Como?
- É isso. Começou a acabar agora... Nós dois, eu digo.
- Mas eu te conheço?
***
Um bom começo para crer na possibilidade de adiar eternamente esse adeus é curar o excesso de lucidez. Para isso, recomenda-se esquecer os parágrafos acima imediatamente. Além de não ler filósofos germânicos, poupar-se do cinema sueco - e do novo cinema dinamarquês. E, claro, ter fé no acidente.
João Paulo Cuenca
Ou ainda: um homem lê o jornal na praia. Uma mulher, três barracas depois, precisa do caderno de classificados. Esse homem maravilhosamente desconhecido lhe atrai. Estamos no momento em que faltam poucos segundos para que ela se levante e vá falar com ele.
Esse momento se repete milhões de vezes, todos os dias, a qualquer hora, em qualquer parte do mundo. Normalmente é fruto do acaso (“uma teia de coincidências”), mas pode também fazer parte de uma orquestração que envolva terceiros. As variações sobre ele são infinitas. Pode acontecer na saída de um teatro, numa madrugada de aeroporto, num velório, num bloco de carnaval, pela internet etc.
Pouco importa o que está no fundo da cena. Importante é o que há em comum entre todos esses encontros. Dizer olá ao desconhecido sempre será começar a despedir-se do futuro conhecido. A história que unirá os que tiverem sorte é uma cerimônia de adeus. Uma mais ou menos longa cerimônia de adeus.
***
Peço licença e me aproprio de algumas rolandbarthianas questões – inúteis, logo veremos. Serei capaz de olhar o rosto de quantas mulheres ao longo da vida? Centenas de milhares? Milhões? Entre as donas desses rostos, desejarei algumas centenas. Mas estarei sempre amando só uma. E por que não outra? O que me fará escolher exatamente essa e não aquela? O que me fará ter medo de perdê-la?
Formulação melhor para essa pergunta: o que me fará querer despedir-me dessa e não daquela?
A mecha de cabelo que cai sobre a testa, a cintura fina, o formato das panturrilhas, o jeito que ri? O seu suor? Ou uma palavra? Um gosto em comum? A timidez do ridículo? O livro que escolhe para ler? O senso de humor? O toque dos dedos? O tom da voz? Jamais saberemos. Novamente, pouco importa o que está no fundo da cena.
Depois de eleito o objeto de desejo, alguém lúcido diria que o amor se construirá sobre camadas de engano e falsas ofertas. Até que cumpra sua vocação irresistível (a despedida) e ressurja num novo encontro entre dois novos anônimos, depois daquele instante vertical que existe entre olhar, levantar-se e dizer “olá”.
O risco de saber disso tudo é, num ato falho, saudar alguém na praia ou na livraria dizendo “adeus”.
***
- Adeus.
- Como?
- É isso. Começou a acabar agora... Nós dois, eu digo.
- Mas eu te conheço?
***
Um bom começo para crer na possibilidade de adiar eternamente esse adeus é curar o excesso de lucidez. Para isso, recomenda-se esquecer os parágrafos acima imediatamente. Além de não ler filósofos germânicos, poupar-se do cinema sueco - e do novo cinema dinamarquês. E, claro, ter fé no acidente.
João Paulo Cuenca
segunda-feira, março 1
Cocô de Boi
Foi meteórico. Apareceram e se mostraram relevantes por matriciar tantas irrelevâncias. Antes vagavam com mística, os Weasel, as Buzzwords, usos de clássicos conceitos em meio à intelectualóideidade, esoterismos em simulacros, raridades em lugares-comum. Ilusões. Bullshit.
Porque a única palavra do boi é o OM.
Porque a única palavra do boi é o OM.
sexta-feira, fevereiro 19
Q c vai fazer com esse ovo, meu filho?
Inovação. Conceito estranho, andrógino, sofisticado até não poder mais, e pop. Hoje é moda inovar, os pop managers vão por aí falando o que a galera sempre fez: "se eu não criar algo novo os vampiros vão vir copiar e a graça acaba". Pois bem, a inovação era interna, em grandes departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento, com tecnologias muitas vezes criadas e sem uso naquele modelo de negócio. É aí que surge um conceito bacana, com a maturação média das leis de propriedade intelectual, informação bombando e globalização rolando; Henry Chesbrough -é, o cara é brow- estuda a produção da inovação em redes abertas interempresariais, o que chama de Open Innovation. É tema de estudo sério nas pós-graduações em engenharia industrial. Henrique vem ao Brasil de vez em quando, e a Época chamou ele pra uma conversa. Taí embaixo.
Íntegra da entrevista com Henry Chesbrough publicada pela Época Negócios.
Por Rafael Barifouse
Época NEGÓCIOS - O senhor poderia explicar o que é inovação aberta?
Henry Chesbrough - O modelo anterior, de inovação fechada, era de auto-suficiência. Fazia-se tudo por conta própria e não se contava a ninguém. Hoje, o conhecimento está em todo lugar e as companhias têm de usar melhor idéias de fora. Não é necessário nem esperto fazer tudo sozinho. A pesquisa está encarecendo, o ciclo de produtos está encurtando, e é preciso trabalhar mais duro para recuperar o investimento. Ser mais aberto permite não só poupar dinheiro, mas também tempo e compartilhar riscos. Mas a abertura não é só na entrada, também deve ser na saída de idéias da empresa. As companhias devem deixar outros usarem suas idéias para levá-las ao mercado em outros negócios. Isso é o que faz o sistema funcionar.
EN- Mas há o receio de compartilhar demais, que leva companhias a manter parte de suas pesquisas para si, não?
Henry Chesbrough - A IBM é um exemplo: doa patentes de software, mas também licencia muitas outras e ganha bilhões com isso por ano. A Intel trabalha com universidades na pesquisa de semicondutores, mas a tecnologia dos chips pertence basicamente a ela. A empresa se abre para parceiros, que ajudam a criar valor para os seus produtos, mas para transformar esse valor em algo rentável, é preciso ser mais proprietário. Senão a empresa não faz dinheiro e não se sustenta a longo prazo.
EN- Como decidir o que deve ser compartilhado?
Henry Chesbrough - Esta é a arte da inovação aberta. A P&G compartilha a maioria de suas tecnologias, mas o faz três anos depois de seus produtos chegarem ao mercado. Com isso, está sempre à frente e faz com que outros a sigam. No Google, você pode usar muitos serviços sem gastar nada, mas a forma exata como a empresa os constrói, a tecnologia por trás, ela guarda para si. A regra é: você quer ser aberto ao criar valor e fechado quando quer capturar uma parte dele para si. Uma companhia nova deve ser aberta para que as pessoas a encontrem, usem e a considerem valiosa. Quando se estabelecer, pode pensar em quais pontos pode ser mais fechada.
EN- Então o modelo de inovação fechado não está morto como dizem?
Henry Chesbrough - O modelo fechado sobrevive dentro de um modelo mais aberto. No modelo aberto, é muito mais valioso ser um integrador do sistema de inovação, como faz a IBM hoje em dia ao oferecer produtos e serviços criados por terceiros. É preciso pensar como as peças se encaixam. Mas isso requer P&D interno para descobrir como fazer.
EN- Na inovação aberta, parceiros ajudam a criar produtos e as estratégias em torno deles, mas uma empresa é a responsável pelo lançamento e pelas receitas. Como esse parceiros devem ser recompensados pela sua ajuda?
Henry Chesbrough - Pessoas de tecnologia tendem a pensar que merecem a maior parte do quinhão, porque se consideram mais inteligentes e por terem a propriedade intelectual. Obviamente, os custos devem ser pagos e o lucro repartido. A tecnologia ainda é muito importante, mas é preciso ir além dela e analisar o mercado para entender de onde vem o valor de seu produto e qual parte cabe a quem. Acredito que quem conquista clientes e os faz feliz, que é de onde vem o maior valor, deve levar a maior parte.
EN- No seu livro, o senhor cita casos da área de tecnologia como Intel e IBM. A inovação aberta é restrita às empresas high-tech?
Henry Chesbrough - Não. Leon, no México, é uma cidade dedicada a fazer sapatos, que não são produtos de alta tecnologia. Desenvolvi com eles um projeto para descobrir como vender para os hispânicos americanos, que serão 75 milhões em 2010. Eles estão preocupados com a chegada dos produtos chineses, que são muito mais baratos. Uma saída é subir de patamar e criar uma imagem mais nobre para os sapatos deles, encontrar mercados pouco explorados. As empresas de lá não conseguirão fazer isso sozinhas. Elas vão precisar de uma série de parcerias para fazer isso e com a rapidez necessária.
EN- O senhor publicou seu primeiro livro em 2003. Como o conceito de inovação aberta evoluiu desde então?
Henry Chesbrough - No primeiro livro, eu foquei em P&D e na comunidade de tecnologia, mas comecei a falar com outras empresas depois e vi que muitas enfrentavam dificuldades com o lado de negócios. No meu segundo livro, falo sobre como se abrir também nessa área de estratégia e marketing para solucionar problemas. Significa pensar o que define um modelo de negócio, como avançar e quem já fez isso. Se você pensa inovação em pesquisa, você só vai até um certo ponto. Ao incluir mais áreas, você pode inovar em modelos de negócios e isso pode ser muito valioso.
EN- O que é um modelo de negócios aberto?
Henry Chesbrough - É usar várias fontes para pensar a criação e captura de valor em seus produtos. Por que uma empresa deve fazer pesquisa de marketing só sobre si? Por que não fazer para as outras também? Muitas companhias não compartilham pesquisas, mas só assim se você realmente vai entender o mercado. Um outro exemplo é a Samsa, a engarrafadora da Coca-Cola no México. Ela presta esse serviço para outras empresas e ganha experiência com isso. Ao se abrir, uma empresa transforma um centro de custo em um centro de lucro ao cobrar de parceiros por serviços que você teria de fazer também para si.
EN- Porque o senhor considera mais difícil inovar em um modelo de negócios do que em tecnologia?
Henry Chesbrough - Temos boas experiências de décadas para inovar em produtos e tecnologia, mas ainda não criamos bons processos para fazer isso em modelos de negócios. Ambos os casos são difíceis. Mas há uma área inteira de engenharia só para pensar novos produtos. No modelo de negócios, é preciso relacionar a tecnologia com operações e estratégia, que são pensadas em lugares diferentes por pessoas diferentes. Você tem de reunir tudo, o que é mais complicado.
EN- O modelo de inovação aberta surgiu a partir do modelo anterior fechado. Sem tradição em pesquisa por empresas e com muito desse trabalho feito em universidades, o Brasil não teve esse modelo fechado. Podemos criar um modelo de inovação aberta a partir do nada?
Henry Chesbrough - Sim. México e Espanha também não têm tradição em pesquisa e consideram a inovação aberta útil para criar um nova mentalidade colaborativa. Essas regiões querem crescer, mas não podem fazer grandes investimentos. A cooperação de pessoas em áreas de interesse comuns para avançar mais rápido. Você precisa de parques e universidades, porque esses lugares têm pessoas que sabem como o sistema funciona e como ele vai se comportar no futuro. Você precisa investir em pesquisa de longo prazo e na experimentação de modelos de negócios. Você precisa de capital para sustentar tudo isso. Com as peças no lugar, vira uma questão de capital humano, talento e conhecimento, e o Brasil tem muito disso.
EN- Como criador do conceito de inovação aberta, no que o senhor está trabalhando agora?
Henry Chesbrough - Em três questões: ir mais a fundo no gerenciamento da propriedade intelectual e fazê-la de forma mais aberta e colaborativa, pensar inovação em serviços por meio dessa abordagem aberta e buscar uma visão mais global do fenômeno. Nos últimos meses, viajei para vários paises e quero criar centros pelo mundo, como fiz na Holanda e na Bélgica. Vamos fazer um no Brasil e há outro a caminho na Suíça e no Japão. Não posso levar esse conceito à frente globalmente sozinho. Numa mentalidade de inovação aberta, busco pessoas inteligentes para conectá-las e promover trocas de experiências e informação.
EN- Quais são os principais desafios da inovação aberta?
Henry Chesbrough - O principal é a mentalidade. Organizações grandes e bem sucedidas têm orgulho de suas próprias realizações, superestimam suas habilidades e subestimam as de outros. Se elas não pensaram em algo, é porque não é bom. Se fosse, já teriam criado. É algo difícil de superar. No lado de negócios, há um equivalente: pensar que uma tecnologia deve ser usada primeiro por quem a inventou e, caso não o faça, ninguém mais pode usá-la. Isso não faz sentido. Se você não vai usar algo, deixe que alguém use. A propriedade intelectual historicamente é gerenciada pelas companhias de uma forma defensiva. Temos de pensá-la de forma mais aberta. Você pode licenciar algo para ganhar um dinheiro adicional ou compartilhar para criar padrão técnico na sua área. Há também o desafio de empresas trabalharem com universidades. Nesse modelo, os dois lados precisam mudar.
EN- E como mudar essa mentalidade?
Henry Chesbrough - Pelas companhias que estudei, só um choque é capaz de fazer as pessoas perceberem que é preciso mudar a forma se inova. Empresas que vão bem não farão isso. Quando ocorre esse choque, a liderança da empresa precisa transformar a crise em oportunidade. Nos casos mais bem sucedidos, havia líderes dizendo que não era possível mais fazer negócios daquela forma. A mudança precisa vir do topo.
Íntegra da entrevista com Henry Chesbrough publicada pela Época Negócios.
Por Rafael Barifouse
Época NEGÓCIOS - O senhor poderia explicar o que é inovação aberta?
Henry Chesbrough - O modelo anterior, de inovação fechada, era de auto-suficiência. Fazia-se tudo por conta própria e não se contava a ninguém. Hoje, o conhecimento está em todo lugar e as companhias têm de usar melhor idéias de fora. Não é necessário nem esperto fazer tudo sozinho. A pesquisa está encarecendo, o ciclo de produtos está encurtando, e é preciso trabalhar mais duro para recuperar o investimento. Ser mais aberto permite não só poupar dinheiro, mas também tempo e compartilhar riscos. Mas a abertura não é só na entrada, também deve ser na saída de idéias da empresa. As companhias devem deixar outros usarem suas idéias para levá-las ao mercado em outros negócios. Isso é o que faz o sistema funcionar.
EN- Mas há o receio de compartilhar demais, que leva companhias a manter parte de suas pesquisas para si, não?
Henry Chesbrough - A IBM é um exemplo: doa patentes de software, mas também licencia muitas outras e ganha bilhões com isso por ano. A Intel trabalha com universidades na pesquisa de semicondutores, mas a tecnologia dos chips pertence basicamente a ela. A empresa se abre para parceiros, que ajudam a criar valor para os seus produtos, mas para transformar esse valor em algo rentável, é preciso ser mais proprietário. Senão a empresa não faz dinheiro e não se sustenta a longo prazo.
EN- Como decidir o que deve ser compartilhado?
Henry Chesbrough - Esta é a arte da inovação aberta. A P&G compartilha a maioria de suas tecnologias, mas o faz três anos depois de seus produtos chegarem ao mercado. Com isso, está sempre à frente e faz com que outros a sigam. No Google, você pode usar muitos serviços sem gastar nada, mas a forma exata como a empresa os constrói, a tecnologia por trás, ela guarda para si. A regra é: você quer ser aberto ao criar valor e fechado quando quer capturar uma parte dele para si. Uma companhia nova deve ser aberta para que as pessoas a encontrem, usem e a considerem valiosa. Quando se estabelecer, pode pensar em quais pontos pode ser mais fechada.
EN- Então o modelo de inovação fechado não está morto como dizem?
Henry Chesbrough - O modelo fechado sobrevive dentro de um modelo mais aberto. No modelo aberto, é muito mais valioso ser um integrador do sistema de inovação, como faz a IBM hoje em dia ao oferecer produtos e serviços criados por terceiros. É preciso pensar como as peças se encaixam. Mas isso requer P&D interno para descobrir como fazer.
EN- Na inovação aberta, parceiros ajudam a criar produtos e as estratégias em torno deles, mas uma empresa é a responsável pelo lançamento e pelas receitas. Como esse parceiros devem ser recompensados pela sua ajuda?
Henry Chesbrough - Pessoas de tecnologia tendem a pensar que merecem a maior parte do quinhão, porque se consideram mais inteligentes e por terem a propriedade intelectual. Obviamente, os custos devem ser pagos e o lucro repartido. A tecnologia ainda é muito importante, mas é preciso ir além dela e analisar o mercado para entender de onde vem o valor de seu produto e qual parte cabe a quem. Acredito que quem conquista clientes e os faz feliz, que é de onde vem o maior valor, deve levar a maior parte.
EN- No seu livro, o senhor cita casos da área de tecnologia como Intel e IBM. A inovação aberta é restrita às empresas high-tech?
Henry Chesbrough - Não. Leon, no México, é uma cidade dedicada a fazer sapatos, que não são produtos de alta tecnologia. Desenvolvi com eles um projeto para descobrir como vender para os hispânicos americanos, que serão 75 milhões em 2010. Eles estão preocupados com a chegada dos produtos chineses, que são muito mais baratos. Uma saída é subir de patamar e criar uma imagem mais nobre para os sapatos deles, encontrar mercados pouco explorados. As empresas de lá não conseguirão fazer isso sozinhas. Elas vão precisar de uma série de parcerias para fazer isso e com a rapidez necessária.
EN- O senhor publicou seu primeiro livro em 2003. Como o conceito de inovação aberta evoluiu desde então?
Henry Chesbrough - No primeiro livro, eu foquei em P&D e na comunidade de tecnologia, mas comecei a falar com outras empresas depois e vi que muitas enfrentavam dificuldades com o lado de negócios. No meu segundo livro, falo sobre como se abrir também nessa área de estratégia e marketing para solucionar problemas. Significa pensar o que define um modelo de negócio, como avançar e quem já fez isso. Se você pensa inovação em pesquisa, você só vai até um certo ponto. Ao incluir mais áreas, você pode inovar em modelos de negócios e isso pode ser muito valioso.
EN- O que é um modelo de negócios aberto?
Henry Chesbrough - É usar várias fontes para pensar a criação e captura de valor em seus produtos. Por que uma empresa deve fazer pesquisa de marketing só sobre si? Por que não fazer para as outras também? Muitas companhias não compartilham pesquisas, mas só assim se você realmente vai entender o mercado. Um outro exemplo é a Samsa, a engarrafadora da Coca-Cola no México. Ela presta esse serviço para outras empresas e ganha experiência com isso. Ao se abrir, uma empresa transforma um centro de custo em um centro de lucro ao cobrar de parceiros por serviços que você teria de fazer também para si.
EN- Porque o senhor considera mais difícil inovar em um modelo de negócios do que em tecnologia?
Henry Chesbrough - Temos boas experiências de décadas para inovar em produtos e tecnologia, mas ainda não criamos bons processos para fazer isso em modelos de negócios. Ambos os casos são difíceis. Mas há uma área inteira de engenharia só para pensar novos produtos. No modelo de negócios, é preciso relacionar a tecnologia com operações e estratégia, que são pensadas em lugares diferentes por pessoas diferentes. Você tem de reunir tudo, o que é mais complicado.
EN- O modelo de inovação aberta surgiu a partir do modelo anterior fechado. Sem tradição em pesquisa por empresas e com muito desse trabalho feito em universidades, o Brasil não teve esse modelo fechado. Podemos criar um modelo de inovação aberta a partir do nada?
Henry Chesbrough - Sim. México e Espanha também não têm tradição em pesquisa e consideram a inovação aberta útil para criar um nova mentalidade colaborativa. Essas regiões querem crescer, mas não podem fazer grandes investimentos. A cooperação de pessoas em áreas de interesse comuns para avançar mais rápido. Você precisa de parques e universidades, porque esses lugares têm pessoas que sabem como o sistema funciona e como ele vai se comportar no futuro. Você precisa investir em pesquisa de longo prazo e na experimentação de modelos de negócios. Você precisa de capital para sustentar tudo isso. Com as peças no lugar, vira uma questão de capital humano, talento e conhecimento, e o Brasil tem muito disso.
EN- Como criador do conceito de inovação aberta, no que o senhor está trabalhando agora?
Henry Chesbrough - Em três questões: ir mais a fundo no gerenciamento da propriedade intelectual e fazê-la de forma mais aberta e colaborativa, pensar inovação em serviços por meio dessa abordagem aberta e buscar uma visão mais global do fenômeno. Nos últimos meses, viajei para vários paises e quero criar centros pelo mundo, como fiz na Holanda e na Bélgica. Vamos fazer um no Brasil e há outro a caminho na Suíça e no Japão. Não posso levar esse conceito à frente globalmente sozinho. Numa mentalidade de inovação aberta, busco pessoas inteligentes para conectá-las e promover trocas de experiências e informação.
EN- Quais são os principais desafios da inovação aberta?
Henry Chesbrough - O principal é a mentalidade. Organizações grandes e bem sucedidas têm orgulho de suas próprias realizações, superestimam suas habilidades e subestimam as de outros. Se elas não pensaram em algo, é porque não é bom. Se fosse, já teriam criado. É algo difícil de superar. No lado de negócios, há um equivalente: pensar que uma tecnologia deve ser usada primeiro por quem a inventou e, caso não o faça, ninguém mais pode usá-la. Isso não faz sentido. Se você não vai usar algo, deixe que alguém use. A propriedade intelectual historicamente é gerenciada pelas companhias de uma forma defensiva. Temos de pensá-la de forma mais aberta. Você pode licenciar algo para ganhar um dinheiro adicional ou compartilhar para criar padrão técnico na sua área. Há também o desafio de empresas trabalharem com universidades. Nesse modelo, os dois lados precisam mudar.
EN- E como mudar essa mentalidade?
Henry Chesbrough - Pelas companhias que estudei, só um choque é capaz de fazer as pessoas perceberem que é preciso mudar a forma se inova. Empresas que vão bem não farão isso. Quando ocorre esse choque, a liderança da empresa precisa transformar a crise em oportunidade. Nos casos mais bem sucedidos, havia líderes dizendo que não era possível mais fazer negócios daquela forma. A mudança precisa vir do topo.
segunda-feira, fevereiro 15
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