Pesquisaí
segunda-feira, junho 30
Entrevista com Emmanuel Carneiro Leão
IHU On-Line – Quais são suas principais lembranças como aluno de Heidegger?
Emmanuel Carneiro Leão – Minha primeira lembrança é que a atividade de ensino e acadêmica de Heidegger para com seus alunos, com os estudantes, aqueles que escutavam suas palestras, era de um cuidado todo especial. Era um professor com grande atenção para as dificuldades e os problemas dos seus alunos. A segunda grande lembrança e impressão que tenho é que a importância do ensino de Heidegger era promover a capacidade de pensamento dos alunos. Ele não queria ensinar respostas, problemas, perguntas, doutrinas, mas desenvolvia a capacidade própria de pensar de cada aluno, porque a posição que ele passava era que todo o homem tem uma contribuição a dar à vida do pensamento, de maneiras diferentes, com graus diferentes, com qualidade diferente, deixando transparecer que essa contribuição é fundamental para o desenvolvimento da capacidade de pensar de todos.
IHU On-Line – Qual é a grande contribuição da filosofia de Heidegger?
Emmanuel Carneiro Leão – A principal contribuição da obra de Heidegger e o grande mérito é promover esse aprofundamento do pensamento. Pensar não é ficar no nível das relações já dadas, encontradas, mas aprofundar, a partir do que é dado, até a proveniência, a origem, a fonte de onde elas são oriundas.
IHU On-Line – Quais são as principais diferenças entre a fenomenologia de Heidegger e a de Husserl?
Emmanuel Carneiro Leão – Podemos dizer que a fenomenologia de Husserl[1] se constrói por meio da intencionalidade da consciência. Isso significa que há uma diferença entre fenômeno e fenomenologia e o que faz a intermediação entre essa diferença é a intencionalidade dessa consciência. Sem consciência, não há fenomenologia, para Husserl. Para Heidegger, já não é dessa forma. Ele acredita que a fenomenologia é o próprio fenômeno. É por causa da fenomenologia do fenômeno que há consciência e intencionalidade. O Dasein, a presença, o modo de ser do homem, não é intermediário entre o fenômeno e a fenomenologia, mas é o lugar onde o fenômeno mostra que ele já é a fenomenologia.
IHU On-Line – Como Heidegger dialoga com a tradição filosófica? Quais são suas principais influências e quais são os rompimentos que propõe?
Emmanuel Carneiro Leão – Heidegger tem uma formação religiosa, cristã, escolástica e, pela escolástica, ele encontra a filosofia grega. Como a filosofia grega, mediada pela escolástica é a filosofia clássica, o que significa Platão[2] e Aristóteles[3], Heidegger procura suas fontes, de onde provêm esses pensadores. Por isso, a principal influência para o pensamento pré-socrático. Para se compreender o pensamento clássico é indispensável ter uma experiência do que constitui a contribuição dos pré-socráticos. Com essa recuperação dos pré-socráticos, que é uma tradição alemã desde Nietzsche, sobretudo, mas também de Hegel[4], embora este esteja mais ao lado de Aristóteles, o que leva a um movimento não de retorno e recuperação das fontes da cultura, da história, do pensamento, da ciência, da arte. Isso é a grande influência que sofre o pensamento de Heidegger, um pensamento cuja originalidade é a sua origem.
IHU On-Line – Em quais aspectos Heidegger influencia o desconstrutivismo e por quê?
Emmanuel Carneiro Leão – Sua influência se dá porque, para se chegar a essa fonte de originariedade do pensamento pré-socrático, há uma necessidade de desvincular-se, desvencilhar-se das respostas já dadas, dos padrões de pensamento e conhecimento já estabelecidos até aqui. Então é preciso se desconstruir o que se constitui a tradição do pensamento, do conhecimento e da arte para poder abrir caminho e libertar a experiência para o originário.
IHU On-Line – De que maneira podemos compreender a afirmação do filósofo de que "chegamos muito tarde para os deuses e muito cedo para o ser"?
Emmanuel Carneiro Leão – A nossa tradição entende a realidade como sendo o resultado não de uma atividade de sentido ou de criação, de um princípio absoluto. Com a modernidade não temos mais essa consciência e essa necessidade, por isso, somos modernos à medida que perdemos essa necessidade. Isso significa que chegamos tarde para os deuses, no entanto, com a modernidade, para conseguir-se isso houve uma mudança nos padrões de relacionamento do homem europeu ocidental, que é a respeito de quem estamos falando. Essa mudança aconteceu porque o homem de agora não quer mais receber, como o homem religioso de antes, os parâmetros e os padrões e princípios de como ele tem que viver. Ele quer, ele mesmo, assumir a construção de sua cultura, sua sociedade, sua vida, seu pensamento, seu conhecimento. O homem moderno é aquele que quer transformar a realidade e não apenas aceitá-la como ela é. A perda dessa perspectiva de aceitação leva consigo também uma experiência de criação, o que significa que, para sermos criadores, não temos que nos deixar sufocar pela forma de conhecimento transformadora da realidade. Por isso, chegamos cedo demais para essa experiência de doação criadora do real.
Téchne em minimum minimorum
Na Idade Média o termo ars era empregado com a mesma acepção da téchne grega, porém a ars mechanica foi aos poucos assumindo as características do termo técnica tal como o entendemos hoje.
Na Idade Moderna a técnica foi incorporada ao saber (ciência). Esta fusão abriu um novo espaço de conhecimento - a tecnologia - uma técnica que emprega conhecimentos científicos e que, por sua vez, fundamenta a ciência, quando lhe dá uma aplicação prática. A tecnologia é então o conhecimento aplicado.
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Bonito isso.
Um pouco de Sophia
Os filósofos da antiguidade dividem-se em duas grandes correntes - materialistas e idealistas. O termo materialista significa aqueles que acreditam que o universo (tudo o que existe) é formado de matéria, inclusive as idéias são resultado do movimento da matéria (ou de energia, que é matéria, como mostrou Einstein). Os idealistas são aqueles que acreditam que existe uma origem, ou ponto de origem, ou ser superior que tudo criou.
Os filósofos Pré-socráticos ou filósofos da physis, que buscavam a arché, que era um princípio que, além de ser o princípio de todas as coisas, deveria também compor (ou fazer parte de) todas as coisas, e mesmo ser o fim último de todas as coisas.
Os filósofos, considerados pioneiros da filosofia ocidental, buscavam um princípio, a arché, que deveria ser um princípio presente em todos os momentos da existência de tudo. Essa arché deveria estar no início, no desenvolvimento e no fim de tudoEstes filósofos são chamados da physis porque suas investigações giravam em torno do mundo material e físico, embora a arché pudesse ser algo não físico: números ou a-peiron (uma "coisa" incriada e sem um começo).
Texto completo aqui.mode Escritor on
Jorge Luis Borges
domingo, junho 29
Carta da Transdisciplinaridade
Preâmbulo
Considerando que a proliferação atual das disciplinas acadêmicas conduz a um crescimento exponencial do saber que torna impossível qualquer olhar global do ser humano;
Considerando que somente uma inteligência que se dá conta da dimensão planetária dos conflitos atuais poderá fazer frente à complexidade de nosso mundo e ao desafio contemporâneo de autodestruição material e espiritual de nossa espécie;
Considerando que a vida está fortemente ameaçada por uma tecnociência triunfante que obedece apenas à lógica assustadora da eficácia pela eficácia;
Considerando que a ruptura contemporânea entre um saber cada vez mais acumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido leva à ascensão de um novo obscurantismo, cujas conseqüências sobre o plano individual e social são incalculáveis;
Considerando que o crescimento do saber, sem precedentes na história , aumenta a desigualdade entre seus detentores e os que são desprovidos dele, engendrando assim desigualdades crescentes no seio dos povos e entre as nações do planeta;
Considerando simultaneamente que todos os desafios enunciados possuem sua contrapartida de esperança e que o crescimento extraordinário do saber pode conduzir a uma mutação comparável à evolução dos humanóides à espécie humana;
Considerando o que precede, os participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade (Convento de Arrábida, Portugal 2 - 7 de novembro de 1994) adotaram o presente Protocolo entendido como um conjunto de princípios fundamentais da comunidade de espíritos transdisciplinares, constituindo um contrato moral que todo signatário deste Protocolo faz consigo mesmo, sem qualquer pressão jurídica e institucional.
Artigo 1: Qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma mera definição e de dissolvê-lo nas estrutura formais, sejam elas quais forem, é incompatível com a visão transdisciplinar.
Artigo 2: O reconhecimento da existência de diferentes níveis de realidade, regidos por lógicas diferentes é inerente à atitude transdisciplinar. Qualquer tentativa de reduzir a realidade a um único nível regido por uma única lógica não se situa no campo da transdisciplinaridade.
Artigo 3: A transdisciplinaridade é complementar à aproximação disciplinar: faz emergir da confrontação das disciplinas dados novos que as articulam entre si; oferece-nos uma nova visão da natureza e da realidade. A transdisciplinaridade não procura o domínio sobre as várias outras disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa.
Artigo 4: O ponto de sustentação da transdisciplinaridade reside na unificação semântica e operativa das acepções através e além das disciplinas. Ela pressupõe uma racionalidade aberta por um novo olhar, sobre a relatividade definição edas noções de "definição"e "objetividade". O formalismo excessivo, a rigidez das definições e o absolutismo da objetividade comportando a exclusão do sujeito levam ao empobrecimento.
Artigo 5: A visão transdisciplinar está resolutamente aberta na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exatas por seu diálogo e sua reconciliação não somente com as ciências humanas mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência espiritual.
Artigo 6: Com a relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a transdisciplinaridade é multidimensional. Levando em conta as concepções do tempo e da história, a transdisciplinaridade não exclui a existência de um horizonte trans-histórico.
Artigo 7: A transdisciplinaridade não constitui uma nova religião, uma nova filosofia, uma nova metafísica ou uma ciência das ciências.
Artigo 8: A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária. O surgimento do ser humano sobre a Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, a título de habitante da Terra, é ao mesmo tempo um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional de um pertencer duplo - a uma nação e à Terra - constitui uma das metas da pesquisa transdisciplinar.
Artigo 9: A transdisciplinaridade conduz a uma atitude aberta com respeito aos mitos, às religiões e àqueles que os respeitam em um espírito transdisciplinar.
Artigo 10: Não existe um lugar cultural privilegiado de onde se possam julgar as outras culturas. O movimento transdisciplinar é em si transcultural.
Artigo 11: Uma educação autêntica não pode privilegiar a abstração no conhecimento. Deve ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar. A educação transdisciplinar reavalia o papel da intuição, da imaginação, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos conhecimentos.
Artigo 12: A elaboração de uma economia transdisciplinar é fundada sobre o postulado de que a economia deve estar a serviço do ser humano e não o inverso.
Artigo 13: A ética transdisciplinar recusa toda atitude que recusa o diálogo e a discussão, seja qual for sua origem - de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política ou filosófica. O saber compartilhado deverá conduzir a uma compreensão compartilhada baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unidos pela vida comum sobre uma única e mesma Terra. A
rtigo 14: Rigor, abertura e tolerância são características fundamentais da atitude e da visão transdisciplinar. O rigor na argumentação, que leva em conta todos os dados, é a barreira às possíveis distorções. A abertura comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito às idéias e verdades contrárias às nossas.
Artigo final: A presente Carta Transdisciplinar foi adotada pelos participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, que visam apenas à autoridade de seu trabalho e de sua atividade. Segundo os processos a serem definidos de acordo com os espíritos transdisciplinares de todos os países, o Protocolo permanecerá aberto à assinatura de todo ser humano interessado em medidas progressistas de ordem nacional, internacional para aplicação de seus artigos na vida.
Convento de Arrábida, 6 de novembro de 1994
Comitê de Redação
Lima de Freitas, Edgar Morin e Basarab Nicolescu
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Já houve um segundo congresso, em Vilha Velha/ES, cuja carta de encerramento pode ser lida aqui.
Um pouco mais sobre a seriedade desse campo de estudos e suas aplicações pelos interstícios deve afluir da leitura abaixo. Definitivamente não é mais uma corrente 'esotérica', tendo base científica principalmente pela obra do francês Edgar Morin, com base no pensamento complexo. Jouez.
A partir do I Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, realizado em Arrábida, Portugal - 1994 e do I Congresso Internacional, realizado em Locarno, Suiça - 1997, ambos organizados pelo CIRET Centre International de Recherches et d'Études Transdisciplianaires de Paris e pela UNESCO, foram definidos os três pilares da metodologia transdisciplinar: a Complexidade, a Lógica do Terceiro Incluído e os Níveis de Realidade.
O olhar transdisciplinar nos remete a um todo significativo que emerge de um diálogo constante entre a parte e o todo, e os três pilares da Transdisciplinaridade permitem que ela também encontre seu lugar na pesquisa e na aplicação. O olhar transdisciplinar busca encontrar os princípios convergentes entre todas as culturas, para que uma visão e um diálogo transcultural, transnacional e transreligioso possam emergir, o que leva também à relativização radical de cada olhar, mas sem cair no relativismo, uma vez que a Transdisciplinaridade nos permite encontrar o mundo comum o/a concordia mundis e o terceiro incluído entre cada par de contraditórios.
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sábado, junho 28
Jornalismo
George Orwell
Dê a cara ao tapa
- Aristotle
